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domingo, 10 de maio de 2009

Andarilho não a passeio


Para frente é que vou, para adiante é que Deus me leva. A estrada atrás de mim está continuamente se desfazendo... sem retorno, sem arrependimento. Não tive tempo de juntar tudo na bagagem. Sempre ficou alguma coisa: um olhar interrompido, um sorriso saudoso, abraços, muitas fotos, lembranças. Também sobrou uma dor — mas a dor tem prazo de validade: no futuro, próximo ou distante, sempre tem.

Que viagem admirável esta peregrinação! Pelos montes, pelos vales (e já atravessei ambos), a paisagem sempre muda e não parece acomodar-se! Está mais bonita agora. Nas últimas vezes que voltei para rever alguns lugares, experimentei a óbvia constatação de que o tempo deles já passou. Senti paz, chorei muito.

A vida do cristão é um projeto, que se desdobra e vai refinando o caminho e o caminheiro. Como possuo (alguma) fé, posso dizer que percebo o rumo, apesar de não ver o mapa por completo. Só recebi o roteiro de hoje. Mas não é existencialismo. Aliás, é anti-existencialismo: um caminho traçado lá de cima e a certeza de que não estou aqui a passeio.

Quem viver verá, mas quem tem fé já pode ver…

terça-feira, 20 de maio de 2008

Fé: uma força sintrópica

Pelos ferozes princípios ora vigentes da entropia, das leis de Murphy, da selva, de Gerson (e tantas mais quantas você puder listar na cabeça), a vida é uma espiral crescente de desagregação, futilidade e falta de sentido. Com efeito, a presente “ordem” de coisas compõe um lúgubre testemunho de até que ponto o ser humano pode degradar-se, alienado de Deus, do seu próximo e de si próprio. Isso me lembra um livro que li há muito tempo, O homem em busca de si mesmo, de Rollo May (Ed. Vozes), que já apontava o vazio como o drama do homem moderno.

As conquistas materiais abundantes desta era, a muita quantidade de oportunidades para o prazer, as batalhas sem fim por dinheiro, poder e fama — nada disso revelou-se capaz de proporcionar alguma satisfação permanente, ou um ideal de vida. As ideologias caíram por terra, dando lugar, em definitivo, a crises institucionalizadas de valores, cristalizadas e banalizantes. As filosofias tentam em vão fornecer respostas, mas a sensação geral é de que a vida vai ficando, paulatinamente, mais furada que queijo suíço. As tecnologias prometeram mais tempo livre, de qualidade, mas omitiram a parte do stress, do spam, do desemprego e do insano workaholism. Tudo que paira sobre nós é esta espiral de questões abertas num cenário absurdamente caótico, subjetivo, imprevisível e sem coesão.

O problema evidentemente não é o progresso, mas a falta de uma força que o subordine aos interesses mais elevados do homem, conferindo ordem, beleza, propósito e plena expressão às suas ações e conquistas, preenchendo os buracos do queijo de cada um, em cada lugar e em todos os aspectos da vida. Essa força, para o cristão, só pode ser o evangelho. Só pode vir de um lugar: a cruz de Cristo. Só pode agir de uma forma: pelo amor que o Senhor derramou nos corações dos crentes. Quando Ele disse: “Vós sois o sal da terra”, referiu-se ao poder transformador do seu evangelho sobre a sociedade, uma influência moral, cultural e espiritual que dá sabor à vida, como o sal à carne. O cristianismo, então, é uma fé missionária e sintrópica. Missionária porque visa a encher toda a terra do conhecimento de Cristo, destronando os bezerros de ouro e o ouro dos bezerros. Sintrópica porque se opõe à desordem, ao mal, à dor, à inimizade, à injustiça e ao engano, colando os cacos e preenchendo os furos. O resultado disso é a perfeita paz com Deus, com o próximo e com nós mesmos — uma paz de valor inestimável e efeito duradouro: a alegria e sensação inefável de que tudo vai ficando, surpreendentemente, em seu devido lugar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Muito além dos astros passar


“Os céus manifestam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, não há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até os confins do mundo.”
(Salmo 19.1-4)

Talvez o maior vislumbre que possamos ter de nosso Senhor e de sua glória futura seja o firmamento, que se descortina aos nossos olhos todos os dias e cuja beleza nunca é banal. O lindo céu proclama a glória, o conhecimento, a sabedoria e a bondade de Deus, diz o salmista. Que deus seria comparável ao nosso? É inaudita a sinfonia silenciosa que o universo oferece ao Criador.

Essa revelação poética de Deus nos enche de esperança, a esperança de dias melhores, pois tanta formosura e esplendor que contemplamos é certamente uma pequena amostra daquilo que ele nos reservou. Tal esperança nos purifica e nos faz ansiar pelo dia em que estaremos face a face com ele. Então todo apego às coisas daqui perde o sentido, e nossa alma só quer estar perto dele, assim como a corsa suspira pelas águas.

O encontro definitivo com Deus é o maior anseio e a maior glória do cristão; nada pode ser mais importante do que preparar-se para a eternidade. Graças ao que Cristo nos proporcionou no Calvário, temos certeza de que um dia iremos, como disse o poeta, muito além dos astros passar.

Imagem: © tripcart.typepad.com

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O tom do nosso canto


O agir divino é hermético, fechado, secreto, um verdadeiro enigma. Não há teologia que o decifre, doutrina que o disseque, filosofia que o analise. Quando pensamos que o vento está soprando para o Norte, ele já foi para o Sul. Com sua força impenetrável, nos compele a lugares insólitos, vales profundos, rios caudalosos, montes elevados. A vontade de Deus é o mistério fundamental da vida a partir do qual se organiza a hístória de cada um.

Para quais rincões Deus nos levará? A quantas paragens Ele nos conduzirá? E até quando permitirá que peregrinemos nesta terra morta, nós, seu povo caminheiro, como artistas mambembes de um espetáculo de dor e de glória, vasos de barro contendo o que de mais excelente já se viu? Não lhe ocorre que quase morremos neste mar encapelado, circundados por essas ondas que tantas vezes arremeteram contra o barco que, no entanto, recebeu a promessa de nunca afundar?

O bom ânimo necessário é a marca do verdadeiro cristão, pois só aos eleitos é dado compreender, ainda que fracamente, o propósito dessas provas, e perseverar nelas. Certamente é preciso fé e paciência: o tempo é de Deus, e tudo se encaixa sinfonicamente em sua visão, a qual gera a forma e o tom, as notas e o andamento da nossa melodia particular, nosso breve canto.

Imagem: © jrcompton.com

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Vestígios do dia



A narrativa do dilúvio (Gênesis 6) é um eloqüente testemunho da severidade divina com o pecado. Deus ceifou toda a humanidade de uma era, salvando apenas oito pessoas — a família de um respeitável senhor de 600 anos! O Dilúvio subverteu as expectativas: a velhice é mais vantajosa que a juventude; a maioria é sacrificada e a minoria poupada; e a própria Terra passa de abrigo ao matadouro da raça humana. A graça comum foi suspensa e só restou a tragédia coletiva, esmagadora e inescapável. Há lições valiosas a aprender desse grave memorial.

1. Deus preferiu velhos a jovens para recomeçar. O idoso Noé passara os seus últimos cem anos construindo a arca e pregando às pessoas que, no entanto, queriam comer e beber, enfim, viver a vida intensamente. Porém Deus desprezou o vigor daquela geração, escolhendo a fé, a integridade e a obediência de um patriarca, ainda que (por nós) considerado muito velho para encabeçar a recolonização da terra.

2. Deus fez justiça quando tudo parecia perdido e manifestou juízo quando tudo parecia tranqüilo. A beleza e esplendor daquele mundo ensejava a ilusão de que Deus estava longe demais para combater toda aquela imoralidade violenta. A pregação de Noé foi o libelo da justiça, do acerto de contas iminente, abertamente rejeitado. Então Deus fechou a porta, pondo fim à impunidade e selando o destino de todos — o que é advertência e conforto para nós.

3. Poupando um remanescente, Deus trouxe-nos esperança. Quando a chuva interrompeu a alegria da última festa e as águas diluíram o vinho da derradeira garrafa, as pessoas se deram conta do fim, mas já era tarde, pois a arca flutuava. O juízo divino engolfava homens e animais, destruindo suas vidas perdidas. Dentro da arca, Noé e os seus eram tudo com que Deus contaria a partir dali. Poupados pela graça divina, enfrentariam o dilúvio e uma terra desfigurada, agora hostil. Noé compreendeu o chamado, pelo que ao sair da arca ofertou a Deus um holocausto. E o mais belo arco-íris rasgou o céu. Noé olhou e sorriu: quem anda com Deus pode aguardar melhores dias.