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domingo, 10 de maio de 2009

Andarilho não a passeio


Para frente é que vou, para adiante é que Deus me leva. A estrada atrás de mim está continuamente se desfazendo... sem retorno, sem arrependimento. Não tive tempo de juntar tudo na bagagem. Sempre ficou alguma coisa: um olhar interrompido, um sorriso saudoso, abraços, muitas fotos, lembranças. Também sobrou uma dor — mas a dor tem prazo de validade: no futuro, próximo ou distante, sempre tem.

Que viagem admirável esta peregrinação! Pelos montes, pelos vales (e já atravessei ambos), a paisagem sempre muda e não parece acomodar-se! Está mais bonita agora. Nas últimas vezes que voltei para rever alguns lugares, experimentei a óbvia constatação de que o tempo deles já passou. Senti paz, chorei muito.

A vida do cristão é um projeto, que se desdobra e vai refinando o caminho e o caminheiro. Como possuo (alguma) fé, posso dizer que percebo o rumo, apesar de não ver o mapa por completo. Só recebi o roteiro de hoje. Mas não é existencialismo. Aliás, é anti-existencialismo: um caminho traçado lá de cima e a certeza de que não estou aqui a passeio.

Quem viver verá, mas quem tem fé já pode ver…

domingo, 21 de setembro de 2008

O pacto inquebrável


Num raio de lucidez no calor da angústia, o salmista se pegou dizendo: “Este deve ser o meu problema: pensar que o Grande Deus mudou.” (Sl 77.10, bv). Atire a primeira pedra (no salmista!) quem nunca se disse tais palavras. O Altíssimo teria cochilado — se já não estaria num sono profundo, cansado de nós e dos nossos problemas. Ou talvez, como o contexto do salmo esclarece, deixado de amar o seu povo, entregando-o nas mãos dos inimigos, aguardando, impassível, a tragédia final. Ele escondeu de nós a sua face, e estamos aqui, sós e gemendo. Mas nosso problema é justamente pensar assim, seguindo as alucinações da nossa agonia.

Este deve ser o meu problema (lit., doença): posso esperar que o mal venha dos ímpios, dos bêbados, dos corruptos, dos ladrões, mas a idéia de que o Deus da aliança voltou sua destra contra os seus filhos para destrui-los é intolerável. Afinal, de que vale segui-lO, Ele que um dia nos tirou das redes, do mar e nos prometeu uma vida abundante pescando homens? Talvez nos inquiete mais, na verdade, o fato de que Deus se reserve o direito de ficar calado, sem justificar suas ações. Ater-se a essa perspectiva é a nossa enfermidade.

Temos uma visão infantil do agir de Deus: ele nos pouparia da banalidade do mal e nos conduziria sempre em meio a um prazer constante (será que é por isso que o louvor contemporâneo é tão hipocritamente “alegre” e “triunfante”?). Ora, e se alguém perder um pai num acidente, ou contrair câncer, ou perder o emprego, ou ser atingido por uma bala perdida? Quando a oliveira mentir, culparemos o Deus do pacto? Exigiremos que nos dê explicações e nos convença da justiça do seu propósito? Acordemos: a oliveira vive mentindo — e na frente dela Deus requer que aceitemos Sua vontade com resignação. Isto é a fé no sentido pleno do termo. Isto é a nossa cura.

Imagem ©: A. Lee Benett Jr, atpm.com

terça-feira, 20 de maio de 2008

Fé: uma força sintrópica

Pelos ferozes princípios ora vigentes da entropia, das leis de Murphy, da selva, de Gerson (e tantas mais quantas você puder listar na cabeça), a vida é uma espiral crescente de desagregação, futilidade e falta de sentido. Com efeito, a presente “ordem” de coisas compõe um lúgubre testemunho de até que ponto o ser humano pode degradar-se, alienado de Deus, do seu próximo e de si próprio. Isso me lembra um livro que li há muito tempo, O homem em busca de si mesmo, de Rollo May (Ed. Vozes), que já apontava o vazio como o drama do homem moderno.

As conquistas materiais abundantes desta era, a muita quantidade de oportunidades para o prazer, as batalhas sem fim por dinheiro, poder e fama — nada disso revelou-se capaz de proporcionar alguma satisfação permanente, ou um ideal de vida. As ideologias caíram por terra, dando lugar, em definitivo, a crises institucionalizadas de valores, cristalizadas e banalizantes. As filosofias tentam em vão fornecer respostas, mas a sensação geral é de que a vida vai ficando, paulatinamente, mais furada que queijo suíço. As tecnologias prometeram mais tempo livre, de qualidade, mas omitiram a parte do stress, do spam, do desemprego e do insano workaholism. Tudo que paira sobre nós é esta espiral de questões abertas num cenário absurdamente caótico, subjetivo, imprevisível e sem coesão.

O problema evidentemente não é o progresso, mas a falta de uma força que o subordine aos interesses mais elevados do homem, conferindo ordem, beleza, propósito e plena expressão às suas ações e conquistas, preenchendo os buracos do queijo de cada um, em cada lugar e em todos os aspectos da vida. Essa força, para o cristão, só pode ser o evangelho. Só pode vir de um lugar: a cruz de Cristo. Só pode agir de uma forma: pelo amor que o Senhor derramou nos corações dos crentes. Quando Ele disse: “Vós sois o sal da terra”, referiu-se ao poder transformador do seu evangelho sobre a sociedade, uma influência moral, cultural e espiritual que dá sabor à vida, como o sal à carne. O cristianismo, então, é uma fé missionária e sintrópica. Missionária porque visa a encher toda a terra do conhecimento de Cristo, destronando os bezerros de ouro e o ouro dos bezerros. Sintrópica porque se opõe à desordem, ao mal, à dor, à inimizade, à injustiça e ao engano, colando os cacos e preenchendo os furos. O resultado disso é a perfeita paz com Deus, com o próximo e com nós mesmos — uma paz de valor inestimável e efeito duradouro: a alegria e sensação inefável de que tudo vai ficando, surpreendentemente, em seu devido lugar.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Cristianismo de respostas


A Igreja está constatando, um tanto tardiamente, que como toda organização, banco ou indústria, deve à sociedade uma ação, ou política de ações, que traga benefícios concretos às pessoas, aperfeiçoamentos relevantes à ordem pública e contribuições positivas ao meio ambiente. O mundo, além de campo missionário, é um complexo ecológico, político, cultural e sócio-econômico. Só a Igreja pode, promovendo a glória de Deus, beneficiá-lo em todos esses aspectos.

Por onde quer que avance, o evangelho vai consertando as vidas, restaurando as famílias, amparando os aflitos, mas pode mais: os rios se tornam mais limpos, as cidades menos violentas, os balancetes mais transparentes, os empregos menos insalubres, as leis mais justas, as cadeias menos cheias, as malas de dinheiro mais vazias. “Não há um centímetro da vida do qual Cristo não diga: é meu” (Cornelius van Til). O senhorio de Cristo deve ser proclamado e vivido pelo seu povo em todos os recôncavos do existir, mesmo os mais agudos, íngremes e escondidos. Para o cristão, toda a vida é religiosa.

Guiado pela Palavra e iluminado pelo Espírito, o crente pode interpretar o mundo corretamente e posicionar-se segundo Deus, ativamente, em favor da reconstrução desse mundo. Com a mente reformada, a Igreja trará a este século perturbado os valores do alto, que, de fato, beneficiam as pessoas: uma ação social que vá além do assistencialismo; uma práxis política que descarte o fisiologismo; uma conduta ética que transforme os costumes; uma força cultural, original e vibrante, que embeleze o que lemos, cantamos, ouvimos; uma influência intelectual que submeta toda filosofia ao conhecimento de Cristo e lute contra toda forma de ignorância; e sobretudo uma grandeza espiritual que traga esperança autêntica para todos e promova a paz entre todos, de todos os lados.